Apresentação

O que chamamos hoje de novos sintomas traz à tona os limites da prática sob transferência, e são emblemáticos do cenário atual do rechaço ao saber inconsciente, da decadência das referências ligadas ao ideal e da vacilação dos semblantes na cultura.
O que observamos na atualidade é o empuxo ao gozo desvelando o cinismo atual, onde o que importa é o imperativo a gozar de um objeto da realidade. Diante disso, o desafio à psicanálise reside em escutar a toxidez desses sintomas para constituir um sintoma analisável.
Os novos sintomas comprometem o trabalho analítico com um a mais de trabalho para chegar aonde a interpelação sintomática foi ludibriada pelo empuxo ao gozo. A psicanálise não trata estes sintomas pela via da moral repressora e sim da regulação do gozo. O aprisionamento a tais sintomas mostra um gozo autístico, que denigre o poder da palavra, pretendendo assim anular o inconsciente.
Dessa forma, o que chamamos de novos sintomas são: as toxicomanias e o alcoolismo, como uma das muitas maneiras de ofertar-se ao mestre contemporâneo, o mercado; a anorexia e a bulimia, como formas de devastar o corpo, que deve obedecer a rígidos padrões de beleza; as ludopatias, na impulsão a ganhar sempre, reservando o sujeito, um mundo sem perdas; por fim, como efeito do declínio do pai, temos também as psicoses discretas. Nestas, a precariedade dos laços confina o sujeito ao isolamento, ao delírio místico nas religiões em voga em seus templos faraônicos, em que o pai não encarna a instância simbólica, mas um pai que legifera e invade a privacidade dos filhos, que continuarão sempre queimando, tal como no sonho relatado por Freud.
O tratamento analítico permite que o sujeito construa um sintoma singular, ou seja, uma nomeação que o possibilite fazer laços.
Gostaríamos de fazer uma interlocução permanente com os colegas que têm na psicanálise a sua orientação clínica, também com o público leigo em geral, assim como com aqueles que, embora tenham outra orientação clínica, queiram contribuir para o avanço que se nos apresenta a subjetividade de nossa época.