“Hoje tô com sangue nas vistas”: um caso de toxicomania e psicose ordinária.

O supereu é uma instância que comparece para qualquer sujeito, mas nas toxicomanias é possível verificar suas incidências contumazes e a sua ferocidade de maneira radical. O caso nos permitirá verificar tais incidências mescladas com passagens ao ato num cenário de toxicomania.

Daniel, 44 anos, soldador, filho mais velho de uma prole de cinco. Perdeu dois irmãos em função do uso e tráfico de drogas, “meu irmão foi cortado em pedacinhos”.A relação com a mãe é um misto de devoção e raiva. A violência compõe a tessitura familiar desse sujeito. Possui uma forte compleição física, tom de voz alto e firme e sabe abusar desses atributos causando medo e tirando vantagens disso.

Sua relação com as substâncias se dá aos 14 anos com álcool e logo após, com a cocaína. Filho de pai alcoolista que apresentava períodos de depressão entremeados por períodos de violência, onde a esposa era alvo de suas agressões. Seu pai, nos períodos de depressão, ficava sem sair do quarto e, em certa ocasião, chegou a tentar o suicídio. Continuou o percurso de alcoolista até o fim de seus dias, apesar de ter feito um câncer de estomago, não parou de beber – “meu pai bebeu até morrer”.

Usuário contumaz de álcool e cocaína, acrescido de adição ao jogo, sexo em seus períodos de drogadicção. O uso de cocaína é muito intenso: “cheiro montanhas de cocaína”. Nessas ocasiões, relaciona-se sexualmente com mulheres, homens, travestis “o que vier eu traço”. Só cessa o uso quando fica numa condição de puro dejeto, permanecendo dias em seu quarto, fazendo suas necessidades no chão, sem banhos, sem dormir. Justifica seu uso mortífero de cocaína assim: “quero morrer, mas não consigo”,  ou ainda: “dou a mão ao diabo e vou embora”. Percebemos claramente a face paralisantedo supereu enquanto imperativo de gozo “Nada força ninguém a gozar, senão o superego. O superego é o imperativo de gozo – Goza!” (1)Voz insensata denominada como uma das formas do objeto a.

Sua inserção no Caps é marcada por várias passagens ao ato, como agressões físicas a alguns pacientes e verbais a alguns funcionários. Essas passagens comparecem tanto em períodos de drogadicção como em períodos de abstinência. A incidência da figura obscena do supereu aparece em suas duas faces: como proibidor “Corto a minha mão, mas não cheiro mais” e como o empuxo ao gozo “Dou a mão pro diabo e vou”; ambas vertentes da pulsão de morte.

As passagens ao ato não se restringem ao Caps, eles permeiam sua vida e, comparecem em todas as suas relações desde as mais significativas até as sem importância. Em geral,se dão quando se sente “humilhado, diminuído”, significantes usados pelo paciente para explicar o mal estar que lhe acomete nesses momentos. A raiva o toma de tal forma que não é possível qualquer mediação, responde com extrema violência, demonstrando sua irrupção devastadora, não poupando ninguém nem a ele mesmo. Nessas ocasiões, há presença da foraclusão, havendo relatos de falas e olhares que lhe retornam no real.

 Tendlarz (2) indica que na clínica da passagem ao ato, deve-se interrogar o sujeito não sobre o que se passou no momento em que ela ocorreu e sim, no momento anterior a sua ocorrência, ponto máximo da angústia,, então a analista encontra os significantes que o capturam nessas situações.

Há indicativos deuma psicose ordinária marcada por inúmeras passagens ao ato como decorrência de sua paranóia, demonstrando o empobrecimento do simbólico. O sujeito esmagado pela barra da divisão inclina-se a posição de objeto dejeto ou faz do outro, objeto dejeto, o que aplaca o gozo invasor, infiltrado do supereu que resulta no empuxo a droga. Ataca para se defender “daquele olhar”. Supereu caprichoso e feroz, possivelmente, identificado ao pai real que transmite a lei real e, exerce a lei na carnenum gozo que não conhece limites. Passagem ao ato como forma privilegiada de aplacamento e esvaziamento do gozo.

Sua tentativa de lidar com a debilidade da função paterna se dá na figura do “padrinho” dos grupos de mútua ajuda que frequenta há muitos anos. Recorre ao padrinho numa tentativa de modular seu gozo, pedindo conselhos e orientações em momentos de vacilação. Muitos declinaram dessa árdua função, mas sempre consegue um.

Preserva sua capacidade laborativa e sempre consegue trabalhos. Sua profissão é soldador, mas consegue trabalhar em outras funções. Nunca lhe falta trabalho, embora não o sustente por muito tempo.

Recentemente, namorou uma mulher. Esse relacionamento durou cerca de três meses e, nesse período observou-se um esforço razoável por parte de Daniel em enxugar seus excessos para poder ficar com essa mulher em virtude de um aconchego não experimentado anteriormente. Até que ela lhe endereça demandas e cobranças. Surge então um total desinteresse sexual que culmina num rompimento. Contudo, muito aliviado me diz que “Graças a Deus eu não bati nela”. Recolhe dessa experiência que “não pode ficar direto com uma mulher”.

Seu tratamento comigo, no Caps ad,é marcado por idas e vindas desde 2008. Assim que me encaminharam o caso, em virtude de suas posturas agressivas, o retirei de todo os dispositivos grupais, estratégia utilizada para dar lugar a um sujeito já rechaçado pelos pacientes e equipe.Há dois anos passava a vir com regularidade e, relata estar a 18 meses sem uso de drogas.

A Instituição funciona como grande Outro, lugar da lei e da linguagem. Permite ao sujeito certa subjetivação e reflexão, que o leva a desculpar-se em algumas situações em que reconhece seus excessos. Inicia-se uma modulação mínima de gozo através de regras institucionais conduzidas pela analista, de forma não caprichosa, mas convocando o possível para esse sujeito.

Diz estara 18 meses sem se drogar e começa a se dar conta que seu “problemapsiquiátrico” é anterior ao uso de drogas. E me diz: “Sempre tive acessos de raiva, me lembrei de que chutava as canelas de minha mãe quando contrariado, não é a droga que me faz ser violento”.

A droga parece ocupar o lugar do indizível do sujeito e suas passagens ao ato funcionam como uma estratégia de esvaziamento de gozo, sempre impossível de alcançar e a análise como uma possibilidade de tratamento desse gozo, pela via da transferência e a importância da instituição como um terceiro, sempre invocada para trabalhar os excessos.

Os efeitos do tratamento comparecem: no exercício de sua civilidade, nos cuidados com o corpo, na negociação de melhores condições de trabalho, na possibilidade de uma relação pontual com sua família antes inexistente e, no reconhecimento que o tratamento através da fala faz diferença. Certo dia comparece ao serviço num dia que não é o seu e me diz: “Não posso ficar muito tempo sem vir aqui, se eu não vier falar com a senhora o bicho pega”. Ou ainda: “O que me deixa bagulhado, eu estou abrindo mão”, talvez refletindo uma modulação de gozo que já se esboça.Efeitos de apaziguamento? Talvez, há que se esperar para verificar.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1)   J. Lacan – Seminário 20: mais, ainda, Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) S.E Tendlarz – Psicoses, lo clásico y lo nuevo, Buenos Aires, Grama Ediciones, 2009.