Sobre a Lógica do contemporâneo, psicanálise e cultura

Este trabalho é referente ao Núcleo de pesquisa sobre a sobre a Lógica do Contemporâneo, Psicanálise e Cultura, coordenado por Eliana Bentes Castro até 2014 e em parceria com Marcia Mello posteriormente.

De agosto de 2012 a dezembro de 2015, o Núcleo investigou pontos cruciais da clínica psicanalítica nos dias atuais. Foi importante marcar que o psicanalista só adquire legitimidade em sua prática se ele considerar a subjetividade de sua época. Esta questão foi discutida tomando como eixo “o declínio social da imago paterna” [1], tal como prognosticou Lacan em 1938, bem como a ênfase do sujeito no lugar de gozo e as intervenções no real do corpo.

A pesquisa do Núcleo iniciou a partir da discussão do livro Los 4 discursos y el Otro de la modernidad, de Marie-Hélène Brousse[2]. A autora se remete ao mais além do Édipo desenvolvido por Lacan em O seminário 17 e às consequências deste conceito ao abordar o lugar da psicanálise no discurso do mestre contemporâneo. Lacan ensinou que o discurso do mestre organiza o discurso do inconsciente, já que em ambos o agente é o S1, por isso mesmo são discursos que se equivalem. Aconteceram mudanças ao longo do ensino de Lacan, pois a partir de O seminário 17 a interpretação não se efetua mais a partir do pai edipiano, e sim a partir do S1, definido mais tarde, em O Seminário 23, como o nome do sinthoma. Lacan interpreta o discurso do mestre contemporâneo a partir dos discursos do capitalismo e da ciência.

Brousse elucidou que a psicanálise sustenta o para além do Édipo porque se antes fornecia uma resposta ao todo produzido pela universalidade da lei do Outro, na atualidade, ao contrário, estamos numa época onde O Outro não existe, e o que fascina é o não-todo. Nessa direção ela propôs superpor as fórmulas: saber fazer com seu sintoma e saber fazer com sua imagem. Sua tese é de que não estamos mais no tempo da tragédia, e sim no tempo de ironia e irrisão, uma comédia que transcreve a ruptura com o Outro que não existe.

Marie-Hélène Brousse se valeu de obras literárias para mostrar uma leitura do pai na contemporaneidade, distinta da leitura edípica. Focalizou o não-todo do Nome-do-Pai e assinalou a pluralidade dos nomes. Por exemplo, o livro A Dália Negra, de James Ellroy, fala da decomposição de um corpo feminino em um crime. O autor revela um estilo literário típico em destroçar a língua nos cortes das frases, fazendo com se possa acompanhar a diferença entre o enunciado e o movimento da enunciação, mas sem que se possa constatar a atribuição subjetiva.

Outro exemplo de Brousse[3] é o livro de Thomas Bernhard, Mestres Antigos, que se caracteriza por um estilo musical, pois constrói um escrito como se fosse uma fuga de Bach: pode-se encontrar na mesma página muitas vezes uma mesma palavra, mas com um deslocamento de sentido, como se seguisse um movimento musical de fuga[4].

Finalmente, para mostrar as consequências do Outro da modernidade, Brousse exemplificou o Outro através da pintura de Francis Bacon (1909-1992) retratando o Papa Inocêncio X sentado numa cadeira, pintura original de Diego Velásquez datada de 1650. Nela, o corpo se apresenta como um retrato com padrões e limites, enquanto nos esboços de Bacon aparece como figuras sem moldura, sem padronização, sem limites, expressando o horror.

 Seguindo a nossa pesquisa trabalhamos a conferência de Jacques-Alain Miller (2004) “Uma fantasia” [5], que aborda a cultura após o declínio do significante Nome-do-Pai. Amparado no Lacan de “Radiofonia”, assinalou que ascensão do objeto a liga-se ao imperativo de gozo imposto pelo discurso capitalista e à queda dos ideais que sustentavam a crença no Pai. Por isso a “fantasia” de Miller foi a de propor o discurso do psicanalista “como estrutura do discurso hipermoderno da civilização”, pois “o discurso da civilização hipermoderna tem a estrutura do discurso do analista”, uma vez que ambas – a civilização e a psicanálise –, já não tem mais uma relação de avesso/direito, “essa relação é, antes, da ordem da convergência” [6].

A moral civilizada mencionada por Freud permitia aos sujeitos desamparados ter uma bússola – pois a moral inibia a transgressão e funcionava como interdição ao gozo, – hoje os sujeitos encontram-se desbussolados.  Nessa direção trabalhamos o Seminário de J.A.Miller, “O Outro que não existe e seus comitês de ética” a partir da pergunta: o que ocorre quando o Outro não existe?

Para concluir trabalhamos o texto de Miller[7] “Progressos da psicanálise bastante lentos”, fundamental para acompanhar as mudanças na teoria de Lacan referente ao gozo, à fantasia e ao sinthoma. Miller esclarece que antes o desejo era criado pelo interdito, tendo origem edipiana, enquanto no contemporâneo o Outro é o próprio corpo[8]. E o gozo não está mais ligado à interdição, ele é um acontecimento de corpo, cujo valor é o de se opor à interdição. O que conta é a satisfação que a pulsão obtém em sua trajetória que não depende do interdito. Tudo se transforma do gozo do Outro para o gozo do corpo.

Encerramos nosso percurso de estudo com a discussão dos textos chaves para o Congresso da AMP, em abril de 2016. Trabalhamos “O corpo falante e o inconsciente no sec.XXI”- argumento de Miller para este congresso e o texto de M. H. Brousse, “Corpos lacanianos: novidades contemporâneas sobre o Estádio do Espelho”. (Revista Opção Lacaniana on line no15)

Outras referências bibliográficas citadas e/ou comentadas:

BROUSSE, M.-H. (2002). O inconsciente é a política. São Paulo: seminário EBP-SP, 2003.

______________.(2012). El Superyó Del Ideal hacia el objeto perspectivas políticas, clínicas y éticas.Córdoba Babel Editorial

CLAUDEL, P. (1908-1916). L’otage, suivi de Le pain dure et Le père humilié. Paris: Gallimard, 1990.

LACAN, J. (1960-1961) O Seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.

_________. (20/11/1963).  Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

_________. (1969-1970). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.

_________. (1974-1975). “RSI”. Seminário 22, não publicado, tradução desconhecida.

_________. (1975-1976). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

Miller, Jacques-Alain.\ colaboração com Éric Laurent: “O Outro que não existe e seus comitês de ética” (1996-97, Paidós, 2005),

[1] LACAN, J. (1938). “Os complexos familiares na formação do indivíduo”. Em: Outros escritos. RJ: Jorge ahar Ed., pp. 66-67.

[2] BROUSSE, M.-H. (2000). Los 4 discursos y el Otro de la modernidad. Cali: Ed. Letra, Grupo de Iinvestigación de Psicoanálisis de Cali.

[3] Ibid, pp. 99-103.

[4] Ibidem, p. 99.

[5] MILLER, J.-A. (2004). “Uma fantasia”. Em: Opção lacaniana n. 42. São Paulo: Eolia, janeiro 2005.

[6] Ibid, p. 9-10.

[7] MILLER, J.-A. (2010-2011). “Progressos da psicanálise bastante lentos”. Em: Opção Lacaniana n.64, dezembro de 2012, pp. 9-67. .

[8] Ibidem, p. 63.