Tóxicos e manias

As toxicomanias são um gozo próprio de nossa época.  O sujeito dito toxicômano, rompe com o gozo fálico e com as particularidades da fantasia e não é, necessariamente, psicótico.

Mas, o que chamamos toxicomania? O que o uso de tóxicos tem a ver com a mania? Há que separar o consumo eventual da mania do consumo.  É a este último que reservamos a denominação de toxicomania, não sem levar em conta determinadas coordenadas clínicas estruturais, ou seja, se estamos diante de uma neurose ou de uma psicose.

Se partirmos do texto de Freud, Luto e melancolia[1], observaremos que, nesta última, o ego sucumbe ao complexo do objeto, ’’a sombra do objeto recai sobre o eu”1, ao passo que na mania, domina-o ou o põe de lado. A alegria, o triunfo e a exultação fornecem o modelo da mania. Na melancolia, a regressão da libido ao eu, ao narcisismo, é a única responsável por, terminado o trabalho da melancolia, a libido se tornar livre, fazendo com que a mania seja possível. Ainda quanto ao eu, num outro texto, Inibição, sintoma e angustia, Freud considera a inibição como ponto de apelo da depressão, definindo a inibição como “um limite funcional do eu”[2] há um eu empobrecido.

No RSI Lacan aproxima a mania da inibição. A inibição é uma questão de corpo, na qual o real é convocado diretamente, fora do sentido. Na mania o sujeito não cessa de obturar o buraco do simbólico sem integrá-lo.

No seminário 10 Lacan postula a mania como sendo a não-função do a que está em causa, e não simplesmente o seu desconhecimento. ”O sujeito não se lastreia em nenhum a, o que o deixa entregue, as vezes, sem nenhuma possibilidade de libertação, à metonímia pura, infinita e lúdica da cadeia significante”. [3] Estas perturbações ocorrem em razão de uma disjunção radical entre sujeito e objeto inviabilizando a não constituição da fantasia como anteparo ao real. A conseqüência é que o sujeito fica entregue a metonímia pura pela não função do a na mania e pela alienação narcísica na melancolia.

Como podemos, então, nos servir destas formulações? A mania do consumo, toma como paradigma a ruptura fálica, de modo provisório. Se levarmos em conta que na única definição que Lacan deu sobre a droga ele toma como referência o pequeno Hans e o “faz pipi”, esta referência tomada de Hans, indica a neurose e não a psicose uma vez que nesta, a ruptura   fálica se dá desde o início. A ruptura com o “faz pipi” na neurose, permite o restabelecimento com o “faz pipi” para sair da toxicomania. Tal restabelecimento acontece, como podemos observar, por exemplo, com a transferência que, ao instalar-se, produz como efeito a redução do consumo.

Na mania o sujeito se solta do laço do falo. Para Freud, a mania, implica um desenganche com o Outro e certamente com o limite fálico.  Manter o sufixo “mania” serve para designar uma saída,  ao impasse que a relação com o falo pode comportar entretanto,  esta não é da mesma ordem daquela  que se dá na psicose quanto a soltura do falo.

O efeito da droga sobre o corpo do “falasser,” pode ser tanto o de silenciá-lo quanto o de provocar a excitação. Esta, leva a deambulação e a agitação, muitas vezes, insuportável que faz com que o sujeito tome mais uma dose, um a mais de indução química de gozo auto erótico, única saída diante da castração.

Se o sintoma é o que não cessa de se escrever, com o uso da droga, com a mania do consumo, o sujeito não cessa de se escrever como apagado, de tentar apagar a escrita do sintoma, e assim, não se defrontar como que não cessa de não se escrever do real.

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[1] Freud, S. Luto e Melancolia, ([1925]1915), in Obras Completas, vol. XIV, Rio de Janeiro, Imago Ed, 1980

[2] ______ Inibição, Sintoma e Angústia (1925), in Obras Completas, vol. XX, Rio de Janeiro, Imago Ed, 1980

[3] Lacan, J. O seminário livro10, A angústia (1962-1963), Jorge Zahar Ed Rio de Janeiro, 2005, p.365

 

OBS: o presente trabalho teve como contribuição a leitura da pesquisa realizada pelo Núcleo de Pesquisa em  Clínica Psicanalítica, da CLIPP – Coordenado por Carmem Sílvia Cervelatti.