Uma nova ordem discursiva

Uma nova ordem discursiva (*)
Lenita Bentes (Rio de Janeiro)
lvgbentes@uol.com.br
O momento brasileiro é de extrema riqueza apesar do conturbado contexto político. A crescente discussão levada aos bares, ao trabalho, às ruas e aos mais diversos lugares onde crescem as críticas aos atores políticos em questão enriquecem uma conjuntura política complexa.
Algo novo se produz a partir da experiência de uma expressiva ascensão social da classe menos favorecida, de uma divisão maior, embora ainda insuficiente, da riqueza nacional.
Os números dessa ascensão inusitada produzem, entre outros efeitos, uma modificação discursiva inquestionável. A distribuição da riqueza e, portanto, o acesso aos bens de consumo, até então inalcançáveis, já não mais podem ser dispensados. Junte-se a essa experiência, um maior acesso à educação e à saúde, até então reservado às classes mais favorecidas.
A luta para garantir tais conquistas provém de pessoas organizadas em coletivos; um segundo efeito está no de empunharem bandeiras que não representam nenhum partido político, embora alguns partidos possam se misturar a esses coletivos.
Os coletivos respondem à crise de representatividade política que assola o país como um todo. De norte a sul, não há representatividade política. “Ninguém me representa!”, é o bordão desses coletivos.
Um terceiro efeito desta crise é um novo estilo de golpe, o golpe cínico, que vem produzindo efeitos, alguns inesperados e positivos; outros, igualmente inesperados e devastadores para o país e sua estabilidade econômica.
Enquanto os movimentos sociais trazem cada vez mais descontentes às ruas, a classe média esconde-se envergonhada, uma vez que representantes políticos, históricos, dela oriundos, ou ao menos defensores de seus interesses, aparecem mais e mais envolvidos em falcatruas, que expõem os intestinos corrompidos do poder.
O edifício legislativo caiu de podre, o sistema judiciário, conservadoramente organizado, move-se com dificuldade, mas capitaneia o golpe. Assim, não tem como instaurar a lei e muito menos a ordem. Quanto ao executivo, depois do golpe, arrasta-se nas águas turvas da insanidade sem se aguentar nas pernas. Desestruturado pela oposição de ontem, aguarda pelo resultado da fraude golpista que sofre debacles contínuas em seu quadro de ministros. O social é ditado por apetites mais à direita ou mais à esquerda, esta, mais aguerrida, posto que é a que mais tem a perder como projeto político.
A polarização se dá dentro de três marcos: o dos ideais, o da violência e o do cinismo. Este último dá, preferencialmente, o tom.
Parece-me interessante investigar a nova ordem discursiva, inventada, construída pelos coletivos. O interesse decorre do fato de observar o surgimento dessa nova ordem discursiva, de acompanhar, por exemplo, soluções que já não se apoiam num líder, em nossa linguagem, num S1 organizador, unificante. Ao contrário, há uma pulverização de S1, que dura o estrito tempo de conduzir uma determinada demanda que, ao ser atendida, ou não, pode não ser o mesmo coletivo que encaminhe a demanda seguinte. Não há representatividade! Ninguém encarna ou representa esses coletivos.
Como podemos pensá-los? Que forma discursiva conduzem?
Em seu curso, El Otro que no existe y sus comités de ética (2005), Miller diz:

[...] o S1 é I maiúsculo em épocas de desamparo, em tempos de discussão, de sociedade deliberante. Por isso Lacan propunha escrever como significante mestre do discurso capitalista o próprio sujeito barrado. Propunha para dito discurso, que de fato, não havia mais significante mestre se não a própria vacuidade do sujeito, seu próprio culto, sua autenticidade, seu próprio desenvolvimento, sua própria expansão, sua autorreferência [...]

E mais adiante: “Não só o sujeito flutua no discurso do Outro, mas o próprio discurso do Outro lhe parece flutuante, pulverizado, fragmentário. [...] Como já não há discurso do Outro, nos vemos obrigados a conversar, a discutir, avaliar, deliberar e a falar.”
Como sabemos, o inconsciente, o sujeito do inconsciente, padece dos efeitos, das modificações da cultura. Longe de acomodar-se, o sujeito do inconsciente, e isto lhe é próprio, reage às mudanças na cultura, produzindo invenções singulares. E digo, não apenas invenções singulares, mas novas formas discursivas, e o coletivo é uma delas.
Essa nova ordem leva a novas modalidades de laços sociais, menos duradouros, mas não menos eficazes, como por exemplo, não só os coletivos que vão às ruas, mas as redes sociais, outra forma de coletivo em escala mundial e de extraordinária potência, como outra forma de coletivo aberto. Não se trata da adesão a um partido político, que, direta ou indiretamente, viria a representar o sujeito político, mas do coletivo representando uma causa pontual, coletivos abertos e apartidários.
Eric Laurent, em seu recente livro O avesso da biopolítica, cita Marcel Gauchet, no livro A democracia contra ela mesma: “A política consiste especificamente nisto: ela é o lugar de uma fratura da verdade” . Ele o afirmava para dizer que, na democracia, que se divide em muitas opiniões, a verdade jamais é Una. Para ele, o futuro das democracias não engendrava nenhum entusiasmo, e sim, um certo afeto depressivo.
Devemos acrescer a essas observações as de Miller, em “Intuitions milanaises (2)”, ao dizer que “a cidade não existe mais, uma vez que o espaço político da Cidade e do Estado-Nação se encontra tomado pela globalização.” Ainda em O avesso da biopolítica, Laurent chama a atenção para o fato de:

A insegurança característica da subjetividade moderna se define por uma relação central a angústia. Trata-se, diz ele, de um regime do sujeito afeito ao corte introduzido pela angústia em tudo o que constitui o mundo, suspenso ao que vem furar o mundo. Se esta relação do sujeito com o corte e o vazio pode ser dita “fora do sentido”, ela pode, todavia, ser “contabilizada” como marca de um sujeito que falha, e que pode ser anotado como “não um”, pois, no nível do desejo, o sujeito se conta.

Quanto à identificação a um traço positivo que é tirado do Outro em Psicologia das Massas,
Em oposição a esta identificação e aquela fundada na fantasia como resposta face a angústia original, nos permite ler de outra forma as manifestações seguintes aos atentados de janeiro de 2015. Este segundo tipo de laço se inscreve na série de respostas à crise, formuladas em movimentos espontâneos, sem palavra de ordem unificadora.

Ainda trabalhando os novos laços engendrados a partir da crise do “Um”, ou seja, da representatividade e seus efeitos no laço social, me reporto a um texto de Slavoj Zizek, recém publicado na internet: “Precisamos entender a esquerda que apoiou o Brexit”, a saída da Inglaterra da comunidade comum europeia.

Quando perguntaram ao camarada Stalin no final dos anos 1920 o que ele achava pior, a direita ou a esquerda, ele imediatamente rebateu: “os dois são piores!” E essa é minha primeira reação ao Brexit. A Europa está presa agora em um círculo vicioso, oscilando entre dois falsos opostos: de um lado a rendição ao capitalismo global, e de outro, a sujeição a um populismo anti-imigração. É preciso colocar a pergunta: qual é o tipo de política capaz de nos tirar desse impasse?

Nessa situação, Zizek diz ser compreensível que a esquerda tenha apoiado o Brexit, pois,

[...] afinal um Estado-Nação, livre do controle dos tecnocratas de Bruxelas pode estar numa situação melhor para proteger o Estado de bem-estar social e reverter políticas de austeridade. No entanto, o que é perturbador é o pano de fundo ideológico político dessa posição.

Pois da Grécia à França, há uma nova tendência a partir do que sobrou da esquerda radical: a redescoberta do nacionalismo. Desmascarou-se o universalismo como contraparte política do capital global “desenraizado” . É o populismo nacionalista de direita em ascensão.
O que deve decidir o governante hoje, segundo Zizek, é se ele se atreve a mexer com os mecanismos capitalistas ou se opta por jogar as regras do jogo. Termina seu texto dizendo ser, a seu ver, a saída para o impasse entre o capital e o trabalho, a criação de uma esquerda europeia em lugar de se opor aos eurocratas. “Não vamos competir com os populistas de direita. Não vamos permitir que eles definam os termos da luta”!
Qual é o tipo de política capaz de nos tirar de nosso impasse, considerando que vivemos num mundo globalizado e que fazemos parte dele da pior maneira possível como produtores de mão de obra barata e não especializada? Como sobreviver no mundo dos mercados comuns? Que posição ocupamos nesse mercado? Que outras saídas além dos coletivos?

Notas

Miller, J.-A. (2005) El Outro que no existe y sus comitês de ética. Buenos Aires: Paidós, p. 38.
Idem, p. 39.
Laurent, E. O avesso da biopolítica – uma escrita para o gozo (2016). Rio de Janeiro: Contracapa, p. 202.
Miller, J.A. (2003) “Intuitions milanaises (2)”. In Mental — Revue Internationale de Santé Mentale et Psychanalyse Appliquée, n.12. Paris: Nouvelle École Lacanienne, p. 9-12.
Laurent, E. (2016). Opus cit., p. 210.
Idem, ibidem, loc.cit.
Zizek, S. “Precisamos entender a esquerda que apoiou o Brexit”. Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2016/06/24/zizek-precisamos-entender-a-esquerda-que-apoiou-o-brexit/. Acesso em: 14 de julho de 2016.
Idem
Idem
Idem

 

Lenita Bentes – psicanalista praticante, Membro da EBP/AMP
Resumo: Na época em que o neoliberalismo produz uma devastação sem precedentes, novas soluções, invenções, vem orientar a ordem discursiva. Os coletivos e as redes sociais são o efeito da crise de representatividade política atual. “Ninguém me representa”! É o bordão que ecoa das recentes e constantes manifestações sociais no Brasil e no mundo. Em que e como o discurso capitalista fez produzir-se um a nova ordem discursiva, revelando a agonia das democracias em escala mundial.
Palavras chave: nova ordem discursiva, coletivos abertos, representatividade, laço social, unificação, gozo, “Um”, pulverizado, angústia, identificação

Lenita Bentes – Practitioner psychoanalyst. EBP/AMP member
Abstract: At the time neoliberalism brings about unprecedent devastation, new solutions, inventions, come to guide the discursive order.The collective and the social networks are the effect of the current political representativity crisis. “Nobody represents me”
This is the motto echoing from tne recent and constant social protests in Brazil and worldwide. What and how capitalist discourse caused a new discursive order revealing the agony of democracies in world scale.
Key words: new discursive order, open collectives, representativity, social link, unification, enjoyment, “One”, powdered, anguish, identification